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"Black Mirror" Temporada 3 - Crítica da Semana


Ao longo da história o ser humano sempre tratou de questões que vão desde a construção do conhecimento, preconceitos e aceitação daquilo que é diferente, disfunções sociais e psicológicas e a construção de uma sociedade mais justa e igualitária. Na esfera individual e coletiva sempre lidamos com as mais variadas formas de conflitos e temos feito progressos. Apesar disso, alguns comportamentos parecem se repetir e encontrar novas formas a cada momento da nossa história. Para isso, as ferramentas de comunicação e expressão que usamos exercem um papel fundamental, seja para nos libertar ou para nos aprisionar. Refletindo a maneira como o ser humano tem se comportado na presença da tecnologia, Black Mirror é uma série criada pelo britânico Charlie Brooker que reflete bem todo o drama presente na história humana no âmbito pessoal e coletivo, buscando num futuro não muito distante refletir sobre o comportamento das pessoas nessa nova realidade.

Tendo início o com episódio “Perdedores”  (Nosedive), dirigido por Joe Wright e estrelado por Bryce Dallas Howard, talvez nunca antes um material áudio visual tenha desferido uma reflexão tão poderosa sobre a nossa sede de likes e curtidas, sobre a imagem criada virtualmente através das redes sociais. Sem se referir a nenhuma rede social específica, mas refletindo o comportamento que temos com todas elas em geral, este episódio entrega uma Lacie Pound escrava da opinião dos outros e das cotações desferidas quase que a todo o momento, e quando em certo momento vemos varias pessoas reunidas num lugar, todas ela olhando para seus celulares, reagindo como os outros de maneira artificial e falsa, não deixa de incomodar por nos enxergarmos naquele comportamento potencializado pela tecnologia (em alguns momentos aquelas interação me lembraram muito os filmes do Kubrick, do jeito artificial  e polido como ele gostava de mostrar seus personagens interagindo em “O Iluminado” ou em “De Olhos Bem Fechados”, antes de surtarem completamente ao longo da narrativa. Isso reforça o fato que Black Mirror reflete um comportamento potencializado pela tecnologia, não causado por ela). Ao final deste episódio, temos aquilo que mais parece à personagem uma interação mais natural, sincera e orgânica, que curiosamente também ocorre através de uma parede de vidro, numa rima visual muito feliz de Joe Wright.

Em “Versão de Testes” (Playtest) temos o tema da realidade virtual explorada com mais força. Partindo de um conceito chamado de singularidade, que como consta no diálogo do episódio, consiste no fato da inteligência de uma máquina eventualmente superar a de um ser humano. Pois essa premissa se confirma quando Cooper, que saíra da casa da mão devido à perda do pai e que parece ter extrema dificuldade em encarar a sua realidade resolve participar de um jogo que trará a tona alguns de seus medos. Pois podemos perceber o quanto o jogo em si explora o conceito de entrar cada vez mais na psique de Cooper e conseguir evocar o aquele que é seu maior medo. As rimas visuais entre a casa do jogo e a casa de Cooper comunica bem o estado de espírito de seu personagem e a constante sensação de nunca saber o que é real torna o episódio extremamente tenso. 

Em “Cala a Boca e Dança” (Shut Up and Dance) temos o tema da invasão de privacidade desenvolvido de maneira intensa. Quando Kenny é obrigado a fazer tarefas cada vez mais perigosas pela cidade percebemos o poder que muitos Hackers podem ter sobre nossa liberdade. A revelação final sobre um detalhe das fotos que Kenny olhava serve para deixar mais tênue a linha entre certo e errado, nunca entregando uma resposta fácil às perguntas que se propõe e servindo, inclusive, como uma espécie de bússola moral para o espectador, caso achemos que o personagem merecia o que sofrera ou não, um julgamento nada fácil de fazer. 

San Junipero” traz uma ambientação atípica dos outros episódios e por si só já vale pela maneira criativa como desenvolve seu enredo. A medida que avança vai trazendo revelações sobre o que é aquele/aqueles lugares e sobre suas personagens, conferindo um ar tocante de melancolia muito forte a partir do momento que conhecemos suas histórias pessoais. De novo, aqui não existe certo ou errado e a tecnologia empregada tem caráter libertador. Mas ao mesmo fica a impressão de que o que resta para Yorkie Kelly é uma realidade emulada, que supera as fatalidades e o peso de algumas decisões tomadas, mas ao mesmo tempo em que liberta, aprisiona na mesma medida. 

"Engenharia Reversa" (Men Against Fire) é o episódio mais ousado, tão ousado quanto “Perdedores”, mas desta vez numa esfera coletiva e governamental, tecendo reflexões sobre intervenções militares, manipulação da opinião pública e sobre a maneira como enxergamos o outro, aquilo que é diferente ou os próprios estrangeiros. É muito comum em discursos fascistas tratar o estrangeiro ou aquele que não se encaixa num comportamento conservador como algo menos que humano. E é isso que vemos aqui, o interesse de um grupo esmagar a presença de outro e é impossível não traçarmos paralelos entre as Grandes Guerras, entre os conflitos que fazem parte da história do Oriente Médio, entre protestantes e cristão no Domingo Sangrento na Irlanda do Norte, na perseguição dos comunistas no macarthismo, no assassinato de opositores nos tempos da nossa ditara militar e no aspecto que esse ódio e desumanização ocorre nos dias de hoje, através de novas ferramentas, tratando o diferente como se fosse uma barata que deve ser esmagada.





Finalizando com “Odiados pela Nação” (Hated in the Nation), um episódio de aproximadamente 90 minutos, as importantes questões sobre vigilância do governo, tão atuais e presentes desde o vazamentos de informação de Edward Snowden em 2013, aliada ao fato da Internet ter se tornado uma espécie de terra de ninguém onde pessoas falam o que bem entendem com uma liberdade perigosamente irresponsável, usando avatares que as tornam corajosas (e covardes ao mesmo tempo) o bastante para falar aquilo que não diriam fora do mundo virtual, e o tom policial que preenche a trama do início ao fim tornam esse episódio muito envolvente e tenso, apesar de contar com um desfecho um pouco insípido em se comparado com a maneira intensa que os outros episódios concluíam.  

Assim, Black Mirror se torna uma das mais importantes séries da atualidade, ao refletir em cada um dos seus seis episódios o comportamento humano presente ao longo de nossa história  através daquele reflexo de uma tela pela qual enxergamos uma vida muitas vezes falsa, muitas vezes angustiante, muitas vezes libertadora, mas que sempre será um reflexo da nossa vida real.





Direção:  Joe Wright, Dan Trachtenberg, James Watkins, Owen Harris, Jakob Verbruggen e James Hawes

Roteiro: Rashida Jones, Michael Schur, William Bridges e Charlie Brooker

Elenco: Bryce Dallas Howard, Alice Eve, Demetri Goritsas, James Norton, Alan Ritchson, Cherry Jones, Wyatt Russell, Hannah John-Kamen, Wunmi Mosaku, Ken Yamamura, Alex Lawther, Jerome Flynn, Natasha Little, Gugu Mbatha-Raw, Mackenzie Davis, Gavin Stenhouse, Raymond McAnally, Malachi Kirby, Sarah Snook, Madeline Brewer, Michael Kelly, Kelly Macdonald, Faye Marsay, Duncan Pow, Charles Babalola, Elizabeth Berrington e Benedict Wong



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"Black Mirror" Temporada 3 - Crítica da Semana "Black Mirror"  Temporada 3 - Crítica da Semana Reviewed by Gustavo Jacondino on 17:25:00 Rating: 5

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