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"Jason Bourne" - Crítica da Semana


Ajudando a reformular os filmes de espião e a maneira como a ação pode ser retratada na tela do cinema, a franquia Bourne, que teve início com o eficiente “A Identidade Borne”, de Doug Liman, só ganhou contornos mais ousados nas mãos de Paul Greengrass. Investindo em estratégias visuais que dão um ar de realidade, seriedade e tensão, Greengrass atinge o ápice da franquia e da carreira no épico “O Ultimato Bourne”. Pois este “Jason Bourne” revive momentos marcantes da franquia, retoma os acertos e, apesar de não atingir o nível de “O Ultimato Bourne”, se revela um longa extremamente eficiente e necessário após a experiência frustrante de “O Legado Bourne”.

Partindo de onde parara no terceiro filme da franquia e ignorando por completo “O Legado Bourne” (que leva o nome Bourne no título injustamente, pois não é nem de longe um filme que mereça fazer parte da franquia), “Jason Bourne” nos apresenta o personagem interpretado por Matt Damon num novo dilema. Se na trilogia original seu arco consistia em descobrir quem era, neste filme o personagem já tem consciência de sua identidade. E, não a toa, o filme é intitulado Jason Bourne: depois de tudo que passara e ao que se submetera, David Webb não mais existe. Nesse sentido o roteiro, escrito pelo próprio Greengrass e por  Christopher Rouse peca em incluir algumas informações que nos fazem supor que David Webb fora manipulado para que se tornasse a ingressar no programa Treadstone. Apesar de fornecer a pista do porquê dele fazer parte do programa da CIA, isso é mais uma característica de indulgência em relação ao personagem que era obrigado a conviver com as consequências das suas próprias escolhas do passado, mas que agora pode responsabilizar terceiros pelo que lhe acontecera.

Motivado pela declaração de Edward Snowden, ex-técnico da CIA que declarara a quebra de privacidade internacional que a agência recorria comumente usando os servidores da Google, Apple e Facebook, exercendo vigilância dentro do território norte-americano como também fora dele, estando países da Europa, América Latina e inclusive o Brasil incluídos nessa vigilância, o roteiro tem o seu ponto alto exatamente na maneira como retrata o uso das ações de inteligência cibernética e suas consequências num mundo globalizado e rodeado de informação como o nosso, tendo um grande poder de vigilância conferido a poucos. Nesse ponto é notável a direção de Paul Greengrass, que consegue conferir tensão ao simplesmente filmar um computador fazendo upload de arquivos ou equipes coordenando ações em diversas partes do mundo. Mas “Jason Bourne” não conta só com ações de inteligência e transferências de arquivos: O longa possui grandiosas sequências de ação que exalam urgência e tensão. Desde combates corpo a corpo, perseguições de carros e motos, o filme tenta estabelecer sequências de ação que caminham num tom crescente até o clímax do longa. Uma em particular, que acontece num protesto contra o governo ocorrido em Atenas mostram o tamanho do talento do diretor. Sempre filmando no meio de multidões em ambientes que passam um ar de realidade, usando os recursos do zoom e close-up constantes, além de uma câmera inquieta, parece que estamos assistindo a um documentário filmado in loco ou uma reportagem, tamanho o grau de realismo das sequências. Porém todo esse talento acaba eclipsado em muitos momentos por uma montagem que tenta passar a ideia de fluxo, rapidez e urgência, exagerando nos cortes e gerando momentos de extrema confusão na mise-em-scène, defeito que também é compartilhado pelo segundo filme da franquia, “A Supremacia Bourne”. Greengrass só atinge a perfeição em “O Ultimato Bourne”, quando consegue estabelecer a geografia das cenas de maneira mais eficiente e cada corte compõe um plano que se liga a outro. Neste “Jason Bourne” o diretor infelizmente investe em planos e contraplanos, que além de confundir a organização espacial dos personagens e elementos em cena, não extrai o máximo das locações e das composições que o design de produção proporciona.


Ao longo do roteiro podemos perceber o esforço em recriar momentos marcantes da trilogia original, como a perda do personagem com alguém que mantinha um forte envolvimento (que apesar de ser previsível aqui, soa também tocante pela maneira como é filmada), Bourne num telhado vigiando, sempre um passo a frente de todos, encontrando soluções perspicazes e engenhosas, fruto de seu treinamento intenso e um antagonista igualmente capaz quanto Bourne. Nesse sentido vemos um Vicent Cassel compor Asset,  personagem que surge ameaçador por ter uma motivação em perseguir Bourne, não sendo somente um assassino frio e impessoal que cumpre uma missão. O ponto fraco em relação a esse antagonista é ligá-lo a um fato anterior que corresponde ao passado de Bourne, algo que surge como estratégia do roteiro para redimir certas ações do personagem título, mais uma vez soando indulgente em relação ao personagem principal. Alicia Vikander interpreta Heather Lee,  uma supervisora de inteligência cibernética em ascensão, que passa a comandar a operações da CIA depois de confirmado o reaparecimento de Bourne. Sua interpretação sugere o comprometimento e inteligência da personagem, além de um invejável controle que beira à frieza. Em determinados momentos não sabemos se vemos uma personagem que quer crescer a todo o curto sendo corrompida ou alguém que procura manter algum idealismo intacto. Somente mais para o final podemos ter ideia da natureza da personagem. Riz Ahmed interpreta Aaron Kalloor, um jovem milionário da computação, quase como um Mark Zuchenberg, mas que pretende defender sua visão de liberdade diante da CIA. Tommy Lee Jones encarna o veterano diretor da CIA Robert Dewey, calculista e que quer a todo o custo atingir a sua ideia de segurança para o povo norte-americano, tudo isso interpretado de maneira sutil e veemente.

A fotografia de Barry Ackroyd ajuda a compor o clima de realismo documental, se destacando nas cenas noturnas. A trilha sonora de David Buckley e Jhon Powell é muito eficiente ao estabelecer o clima intencionado por Greengrass apesar de ser um tanto monotônica, com poucas variações,  criando a impressão de que parece que estamos o filme inteiro escutando a mesma música.

Contando com uma cena última sequência de ação espetacular e de tirar o fôlego, o desfecho de “Jason Bourne” é bem satisfatório, e quando ouvimos a icônica trilha do personagem, “Extreme Ways”, de Moby, não deixa de passar pela cabeça o quanto filmes como “007 - Cassino Royale”, “Capitão America – Soldado Invernal”, “Capitão America – Guerra Civil”entre outros representantes do cinema de ação devem parte de sua energia e tensão ao que já fora realizado dentro da franquia Bourne.



Direção: Paul Greengrass

Roteiro: Paul Greengrass e por  Christopher Rouse

Fotografia:  Barry Ackroyd

Música:  David Buckley e Jhon Powell

Design de Produção: Paul Kirby

Montagem: Christopher Rouse

Elenco: Matt Damon, Tommy Lee Jones, Alicia Vikander, Vicent Cassel, Julia Stiles, Riz Ahmed, Ato Essandoh, Scott Shepherd, Gregg Henry



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"Jason Bourne" - Crítica da Semana "Jason Bourne" - Crítica da Semana Reviewed by Gustavo Jacondino on 15:02:00 Rating: 5

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